Se eu pudesse rasgava o vento, destruía todo e qualquer lamento, dilacerava cada grito na ponta afilada da minha espada. Estou cansado, cansado de ver passar o tempo, de esperar pelo que não vem, de sentir este vento frio mortificar-me a pele que envelhece a ritmos cada vez mais perenes. Se eu pudesse, começava do zero um novo mundo, pintava um novo céu e criava um novo chão, o mar seria um domínio tépido onde apenas as criaturas pudessem mergulhar. É ilógico querer trespassar as ténues barreiras entre universos, porque mudar seria estar noutro lugar, mas querer o mesmo, não o tendo. Por isso deixo ficar o meu lamento, prescrito no silêncio que me encerra, porque enquanto escrevo não falo, e quando falo não sei dizer o que escrevo.
Perder-me-à o tempo quando eu me esquecer de o acompanhar? Duvido que se lembre de me recordar quando a minha voz se calar e as minhas palavras cessarem. Neste mundo volátil o esquecimento é necessário para libertar espaço na memória dos que não têm tempo para pensar, apenas para seguir com os outros para qualquer lugar. Mas... será que me importo de ser esquecido? Duvido, porque depois de partir não vou voltar ao mesmo lugar, também eu não me lembrarei do caminho para aqui voltar.